Os leitores mais presentes e interessados já devem ter percebido que por aqui mais se critica do que se elogia, mais se questiona do que se respondem perguntas, mais se escreve e pesquisa do que se cria. Reflexo dos nossos tempos, do que a (minha) profissão de designer é hoje e reflexo também do que se planeja para o futuro.
Para explicar tudo isso melhor, vou fazer minhas as palavras da Silvia Grilli, tamanha foi a minha identificação com um texto seu. Reproduzo a seguir alguns trechos e convido a um momentinho de reflexão, óbvio, da parte dos designers :)
“Designer em crise
Ao longo da minha vida tenho buscado, paralelamente, desenvolver uma carreira bem sucedida e viver com pouco. Tendo escolhido o Design como forma de expressão e meio de vida, uma carreira bem sucedida significa criar produtos que despertem no consumidor o desejo de possuí-los. E viver com pouco significa evitar o desperdício e exercitar a simplicidade.
Então, não é um enorme contra-senso atuar como Designer e cultivar o desapego? Durante anos me senti confusa com esta questão. Afinal, minha função na sociedade é estimular o consumo e até criar necessidades inexistentes.
Gandhi disse: “Precisamos SER a mudança que queremos VER no mundo”. E SER é tão diferente das seduções trazidas pelo TER!
Minha redenção começou quando descobri que, como designer ou consumidora, é possível “ser coerente”. Mais do que ser ecológica ou ser sustentável (não gosto de palavras da moda), ser coerente é reduzir o consumo, reciclar, reutilizar, reaproveitar, redesenhar… Infelizmente o mundo à nossa volta não é nada coerente.
[...]
Dizia um professor meu há 25 anos atrás: ‘quanto melhor designer você for, menos desenhará’. É claro que demorei um pouco para entender e hoje concordo plenamente. Quando fica preso somente ao ato de desenhar, o designer deixa de pensar, planejar. Numa palestra recente o diretor de arte da Magis, Eugenio Perazza, também disse aos jovens designers brasileiros: “Pensem muito e desenhem pouco”. E é isto mesmo. Com o amadurecimento de nossa atividade no Brasil veremos designers cada vez mais engajados na produção de objetos inteligentes, comprometidos com o desenvolvimento sustentável e claro, livres das crises de identidade.” (Silvia Grilli, 2009)

