Posts tagged ‘#crise’

maio 1, 2012

Designers em crise

por thaís serafini

Os leitores mais presentes e interessados já devem ter percebido que por aqui mais se critica do que se elogia, mais se questiona do que se respondem perguntas, mais se escreve e pesquisa do que se cria. Reflexo dos nossos tempos, do que a (minha) profissão de designer é hoje e reflexo também do que se planeja para o futuro.

Para explicar tudo isso melhor, vou fazer minhas as palavras da Silvia Grilli, tamanha foi a minha identificação com um texto seu. Reproduzo a seguir alguns trechos e convido a um momentinho de reflexão, óbvio, da parte dos designers :)

“Designer em crise

Ao longo da minha vida tenho buscado, paralelamente, desenvolver uma carreira bem sucedida e viver com pouco. Tendo escolhido o Design como forma de expressão e meio de vida, uma carreira bem sucedida significa criar produtos que despertem no consumidor o desejo de possuí-los. E viver com pouco significa evitar o desperdício e exercitar a simplicidade. 

Então, não é um enorme contra-senso atuar como Designer e cultivar o desapego? Durante anos me senti confusa com esta questão. Afinal, minha função na sociedade é estimular o consumo e até criar necessidades inexistentes. 

Gandhi disse: “Precisamos SER a mudança que queremos VER no mundo”. E SER é tão diferente das seduções trazidas pelo TER!

Minha redenção começou quando descobri que, como designer ou consumidora, é possível “ser coerente”. Mais do que ser ecológica ou ser sustentável (não gosto de palavras da moda), ser coerente é reduzir o consumo, reciclar, reutilizar, reaproveitar, redesenhar… Infelizmente o mundo à nossa volta não é nada coerente.

[…]

Dizia um professor meu há 25 anos atrás: ‘quanto melhor designer você for, menos desenhará’. É claro que demorei um pouco para entender e hoje concordo plenamente. Quando fica preso somente ao ato de desenhar, o designer deixa de pensar, planejar. Numa palestra recente o diretor de arte da Magis, Eugenio Perazza, também disse aos jovens designers brasileiros: “Pensem muito e desenhem pouco”. E é isto mesmo. Com o amadurecimento de nossa atividade no Brasil veremos designers cada vez mais engajados na produção de objetos inteligentes, comprometidos com o desenvolvimento sustentável e claro, livres das crises de identidade.” (Silvia Grilli, 2009)

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janeiro 12, 2012

Li Edelkoort e a crise

por thaís serafini

“Com a crise econômica, vamos passar mais tempo em casa e nos dedicar mais às pessoas próximas. Será uma volta ao nosso interior, à nossa cozinha e mesmo à própria cama, que deixa de ser somente um lugar de descanso para se tornar um espaço social, de jogos, cinema e música. A crise será, de certa maneira, benéfica ao universo da casa e do design. O lar é nosso refúgio, e é nele que vamos investir.”

Um das tendências para o design apontadas pela super expert holandesa.

 

abril 4, 2011

O que o Design Council pode fazer por eles (e por nós)

por thaís serafini

Apesar de pouco conhecido e de receber pouca atenção, o conselho de Design Industrial do Reino Unido funciona ativamente pelo povo. Ao contrário do design de luxo e glamour, entre as últimas intervenções está o trabalho direto dentro de hospitais criando uma solução para as altas taxas de infecção hospitalar.

Desta vez, como parte de uma iniciativa “contra crimes”, o Design Council criou uma caneca para ‘pint’ que seja inquebrável, porém ainda feita de vidro. A demanda surgiu com o levantamento preocupante de dados: a cada ano são 87 mil incidentes violentos envolvendo “arremessos alcoolizados” de objetos em vidro. São altos os danos para a saúde e também para os cofres públicos, que estimam gastos de 2,7 bi de libras em decorrência disso.

Copos em plástico foram literalmente descartados desde o início. Duas soluções foram então propostas: uma usando um revestimento de bio-resina para o fortalecimento e a outra com duas finas camadas de vidro juntas como nos pára-brisas de carros. Em ambos os casos o vidro se quebra porém não se despedaça.

 

Pint-glasses

 

O tal conselho de design foi criado em 1944 num esforço de reerguer a indústria britânica no pós-guerra. Apesar de o Design Council ter sido há pouco fundido com o Conselho de Arquitetura e Construção Ambiental, reduzindo investimentos financeiros para ambos, comenta-se que o momento de crise atual pediria mais ações semelhantes. Criar e manter empregos, incentivar a manufatura local e desenvolver maior competitivade poderiam ser a base para salvar a economia e os jovens britânicos e europeus do alarmante desemprego.

março 22, 2011

O limite entre a sensibilidade e o modismo

por thaís serafini

Rob Walker, jornalista americano que escreve sobre comportamentos do consumidor na coluna chamada Consumed (óbvio) da New York Times Magazine publicou hoje um texto criticando a onda de criações de design que se dizem preocupadas com a situação pós-catástrofe no Japão.

Segundo o jornalista, os posteres, as camisetas e objetos em geral lançados com o tema “Help Japan” são apenas uma resposta rápida e vazia dos designers. Em primeiro lugar, são veiculadas principalmente por blogs e sites direcionados a um público que normalmente está apenas interessado no mais novo objeto sonho de consumo do que com eventos sérios do mundo real. Alguns exemplos:

 

poster by Zac Neulieb

 

t-shirt by Linkin Park

 

Poster by signalnoise.com

 

É claro que todos nos sentimos impotentes frente à catástrofe mas a falta de comprometimento ainda é o maior problema, segundo o jornalista. Ao invés de arrecadar fundos sem ter ainda um projeto de reconstrução ao qual destiná-los, seria mais proveitoso se as mentes pensantes do design se preocupassem, por exemplo, em criar um tipo de ligação em que as pessoas acompanhassem de verdade as situações pós-eventos sérios e não somente enquanto ela ainda está na moda.

Muitos dos meus contatos virtuais trocaram as suas fotos do perfil do facebook ou do twitter, por algo que lembre o sol vermelho símbolo do Japão e acreditam que assim estão demonstrando sensibilidade e incentivando a caridade. Eu não apoio.

O motivo é que, fora estes questionamentos práticos levantados por Rob Walker, tenho tentando me colocar na situação do povo japonês: com a vida severamente abalada (senão destruída) o quanto eu me sentiria melhor ao ver posteres ilustrando o nosso verde-amarelo, uma praia com coqueiros ou uma bola de futebol que sofre e pede doações em dinheiro. A vida moderna, porém, não dispõe do tempo necessário para reflexões desse tipo, my friend, o importante mesmo é estar atualizado com o trending topic do momento.

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março 18, 2011

O que esperar do Salone del Mobile desse ano

por thaís serafini

Daqui a menos de um mês as ruas de Milão estarão um fervo incrível, o numero de eventos e estrangeiros na cidade será mais ou menos triplicado e a senha mágica será Salone. Pois é, se engana quem pensa que esta seria design. O Salone já superou o seu próprio tema e é um conjunto tão grande de eventos simultâneos em uma cidade que não se surpreende mais com o termo design ou com a proliferação de profissionais que se intitulam designers.

Tendo participado da edição passada (review de minha autoria sobre 2010) e acompanhado esse mundinho bem de perto desde então (e muito antes), me arrisco em algumas expectativas e previsões bem pessoais para essa edição de 2011, que aliás, comemora os 50 anos do Salão do Móvel de Milão.

 

Salone Satellite de 2010

Salone Satellite de 2010

 

Design Academy Eindhoven em 2010

Design Academy Eindhoven em 2010

 

Os temas relacionados à retrospectiva e à convivência harmoniosa entre passado e futuro devem estar bem presentes, principalmente em um país como a Itália, no qual o passado é muito mais valioso do que a produção atual. O site da Casa e Jardim montou uma retrospectiva bem superficial dos últimos 10 anos do Salone, vale dedicar uns minutinhos. Na verdade vale mesmo é visitar essa retrospectiva dos 50 posteres desenhados para a promoção de cada edição do Salone del Mobile, começando em 1961.

Era evidente também na edição passada a necessidade de rever muitos conceitos por trás da feira e trazer mudanças. A Zona Tortona já anunciou uma grande renovação conceitual após mudar a diretoria que comanda os principais eventos do Fuori Salone. E se na edição de 2010 os rastros da crise econômica mundial estavam em muitos projetos, não será diferente nesse 2011 que não trouxe melhoras significativas para o continente europeu. Eu esperaria também mais energia no minimalismo e nos esforços de criatividade, a reprise da dupla reciclagem e sustentabilidade, mais espaço para os jovens designers e muitos outros limites rediscutidos e ultrapassados.

A minha curiosidade está principalmente no que a Droog Design, a Royal College of Art e a Design Academy Eindhoven vão apresentar nesse 2011 bem abalado por uma das maiores catástrofes ambientais da era moderna. Ano passado, nos últimos dias do Salone, os designers se sentiram impotentes sem conseguir voltar para casa, pois o vulcão islandês resolveu acordar e nos cobrir de cinzas. Será que alguém além de mim lembrou disso esse ano, antes de projetar? Ou o design deve ser sempre inovador e desmemoriado?