Posts tagged ‘#design indaba’

junho 16, 2011

Um evento discute o que o design pode fazer

por thaís serafini

Dois dias de conferências em Amsterdan, apresentando e discutindo o que o design pode fazer. Simples assim. O Design Indaba fez a cobertura do evento e traz um resumão interessante, com os highlights dos 22 convidados a apresentar suas ideias no (ainda em fase inaugural) What Design can Do. A razão da escolha de Amsterdan para sediar o evento também não é aleatória: “uma cidade onde quatro meios de transporte (carros, trams, bicicletas e barcos) co-existem tão tranquilamente é um exemplo de como design é vital para o desenvolvimento e para o espiríto da sociedade.”

 

what design can do

Dia 1:

Rohan Shivkumar, arquiteto indiano, criticou as escolas de design de países em desenvolvimento, como o seu, que preferem ensinar os alunos a admirarem (e copiarem, eventualmente) os países ricos ao invés de enxergar as dificuldades dos seus. Alguma semelhança com o que acontece com as fábricas calçadistas gaúchas, que mesmo perdendo na competição com produtos Made in China, continuam a copiar descaradamente as coleções internacionais?

Huda Smitshuijzen AbiFares, falou sobre como transformou sua paixão em tipografia em força para renascer as artes contemporâneas e o design no Oriente Médio. Reaproximar os jovens artistas e designers, que se inspiravam demais no Ocidente, à cultura e à herança árabe.

Oliviero Toscani dispensa apresentações. As suas famosas e ousadas campanhas parecem ser mesmo uma continuação do fotógrafo, que falou sobre a coragem de enfrentar os riscos, que anda em falta nos designers, e sobre a criatividade: “Ter milhares de ideias não quer dizer ser criativo. A questão não é ter um monte de ideias, mas sim o que se faz com elas.” Para Toscani a arte é a mais alta forma de comunicação.

 

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Dia 2:

Scott Stowell, um jovem designer americano, relembrou aos participantes de que, apesar de parecer que sim, a experiência do usuário via internet ainda não é tudo. Seu escritório, que se diz não especializado em nada, produziu recentemente uma campanha para uma marca de pizza com foco nos entregadores e na embalagem. Quando questionado por um dos moderadores se um site não seria melhor, Stowell confidencia “Melhor pra quem? Porque quando eu peço uma pizza, eu prefiro ganhá-la em uma caixa legal do que ficar encarando um website.”

E as duas representantes brasileiras, Adelia Borges e Paula Dib (que já foi assunto por aqui), tutora e pupila respectivamente, falaram principalmente do design social e seu impacto no Brasil. A jornalista explicou aos participantes que, por muito tempo no Brasil, os produtos de artesãos locais foram levados e ganharam uma nova etiqueta de autoria, seus trabalhos já não pertenciam nem a eles mesmos. Paula Dib criou a Trans.forma para treinar designers a trabalhar diretamente com os artesãos de uma comunidade e diminuir a lacuna entre o chamado Brasil ‘formal’ e o ‘informal’. Ela acredita na inteligência do trabalho coletivo e quer acabar com a mania de que tudo é ideia de uma pessoa só, pois ao contrário do que disse Toscani, a criatividade está sim presente em todos.

março 31, 2011

Reinvenção social

por thaís serafini

Eu diria que é, no mínimo, engraçado eu ter que vir a conhecer o trabalho de uma designer brasileira através do blog de um evento realizado na África do Sul, tendo que retraduzir sua entrevista para o português. Sim, porque provavelmente ela não esteve dando entrevistas no FantáXtico ou Globo Repórter. Fico feliz pelo reconhecimento internacional, mas já era hora de (re)conhecermos nossos próprios designers.

A Paula Dib, por exemplo, que aplica o design sustentável à comunidades, usando habilidades e recursos locais, já foi reconhecida pelo British Council com o prêmio International Young Design Entrepreneur of the year e é fundadora do Transforma Design. Pois é, eu também não sabia disso.

Seu processo inclui muito diálogo, respeito, curiosidade e trabalho coletivo direto com os membros das comunidades: “O que eu tento fazer é pensar criativamente e agir de maneira local em contextos e circunstâncias diferentes.

 

De situações micro à macro, o papel do designer deve ser enxergar necessidades e públicos especificos, principalmente em um país tão grande e desigual como o nosso, e (tentar) ir contra uma situação de globalização extrema e de produtos sem personalidade. Eu admiro o design holandês, a qualidade Made in Italy e assim por diante, mas me decepciona ver indústrias da minha cidade ou região que, ao invés de desenvolver produtos com identidade própria e local, preferem continuar produzindo cópias.

março 16, 2011

“Um mundo melhor através da criatividade”

por thaís serafini

Acreditar no potencial para mudança das matérias criativas não é novidade (ainda bem),  pois já dizia o sábio Buckminster Fuller:

buckminster

Se existe um continente, um lugar no mundo que tenha maior urgência de mudanças sociais no mundo ele se chama Africa. O Design Indaba traz, desde 1995, conferências com nomes de grande importância no cenário mundial do design para a Africa do Sul. A edição de 2011 aconteceu em fevereiro e não foi diferente.

O lema ‘Um mundo melhor através da criatividade’ é deles. Acreditar que mudanças são não somente necessárias como também completamente atingíveis é o passo numero um.

O acesso à informação e a valorização da criatividade local seriam os passos seguintes e é isso que busca o evento, através de conferências, seminários, workshops, exposições de produtos de designers sul-africanos, uma revista própria e uma organização ‘non-profit’ para estimular e orientar jovens do país.

With a focus on international thought leadership, the Design Indaba Conference has become one of the world’s leading design events and hosts more than 40 speakers and 2 500 delegates”.

Segundo o Coolhunting, entre os tantos nomes participantes das conferências da edição deste ano, alguns obtiveram um maior impacto entre o público, como o designer holandês Marten Baas, premiado pelo Design Miami como designer do ano em 2009.

Marten, que obviamente estudou na fantástica Design Academy de Eindhoven, foi o criador da famosa série de produtos ‘Clay Furniture‘ de 2006, na qual os objetos feitos de um esqueleto de metal tinham a cobertura em argila sintética esculpida à mão, criando peças únicas.

martenbaas

Spazio Rossana Orlandi, Milão, 2009.

A conferência do designer, ainda segundo Karen Day do CH, começou com uma divagação honesta de Marten: “as coisas mais bonitas da vida são inexplicaveis (assim como o amor)” e convidou a observar a natureza e a beleza do mundo através de algumas imagens de árvores.

Sobre o seu processo de criação híbrido, que fica entre aquele de um designer e o de um artista, ele se considera um tomate, que é “tanto uma fruta quanto um vegetal”.

Se a responsabilidade de ser um dos ditadores das ‘novas tendências’ ou ‘novos rumos’ para o design estivesse com o designer holandês, eu ficaria tranquila. Desde a coleção ‘Smoke‘ na qual Marten colocava fogo em peças de designers famosos e depois as apresentava com a aparência ‘queimada’, ao projeto ‘Real Time’ onde explorava a forma de um relógio que ia mudando em tempo real com a participação ao vivo de pessoas (a seguir no video), Marten esteve sempre testando e questionando o design, o ser um designer ou um artista. Os questionamentos mais básicos e primordiais nunca são esquecidos por esses holandeses, e talvez seja essa a causa da minha infinita admiração por seus trabalhos.