Posts tagged ‘#domus’

junho 6, 2012

Quando um mestre do design entrevista outro mestre

por thaís serafini

Só podia dar em um post cheio de citações lindas sobre design, né? Graças à Domusweb que sempre republica essas pérolas do design (grazie, grazie, grazie!), podemos reler a conversa entre Dieter Rams e Alessandro Mendini(então editor da revista Domus) que aconteceu lá em 1984.

Os produtos projetados por Dieter Rams para a Braun são legados dos mais importantes para o design, e se eu mesma fico em dúvida sobre como definir seu conceito, prefiro indicar os seus 10 princípios do bom design e o seguinte trecho da entrevista. Vale ler na íntegra ou só  refletir nas palavrinhas poderosas (a tradução é livre e minha):

A. Mendini: […] Eu sempre quis te fazer a seguinte pergunta: a sua utopia era funcionalista ou era poética e purista?

D.Rams: Eu sempre gostei do simples e do puro – que seja também útil e que possa também possuir poesia. Eu devo muito ao meu avô, que era carpinteiro e sempre recusou as máquinas. O cuidado máximo e a qualidade honesta eram seus princípios. O princípio importante em design na minha mente é remover o não-essencial para revelar a essência. O bom design significa para mim o menos design possível. Eu acredito que é tempo de retornar ao simples. Eu sou contra todos os ‘ismos’, incluindo o ‘funcionalismo’.

O design deve contribuir à funcionalidade de um produto, sem dúvidas, mas design ‘funcional’ não quer dizer uma negligência da estética! Um design esteticamente equilibrado e harmonioso baseado em uma regra, ou em algum tipo de gramático formal, também confere ao produto uma usabilidade especial. Eu acho que eu realmente me vejo mais como um engenheiro da forma do que como um artista.” 

abril 17, 2012

Sobre cadeiras e conforto

por thaís serafini

Bruno Munari é um dos caras mais sábios, sinceros e espirituosos que o mundo do design e das artes conheceu. Suas teorias cheias de bom-humor misturam a imprescindível realidade do cotidiano com a necessidade do sonho. Eis uma delas, extrato publicado na edição 202 da revista Domus em 1944 – vejam bem, há quase 70 anos, mas que poderia ter sido escrito hoje – e que faz todo o sentido rever hoje, às vésperas de mais um Salone de Mobile e em tempos tão complexos (tomo a liberdade de traduzir e resumir):

Procurando conforto em uma cadeira desconfortável

Os designers de interiores estão geralmente preocupado em fazer novos móveis e inventar novas formas para mesas, cadeiras, cabides, poltronas. Vamos considerar a poltrona, que é o exemplo mais óbvio. […] Você entende que poderíamos ir além por milhares de anos (e talvez até mais) inventando diferentes modelos, seguindo todas as tendências em todos os países, todos os materiais que as industrias colocam no mercado o tempo todo, todas as tendências de estilo, etc., tudo isso para agradar o gosto do bom cidadão da classe média que não quer ter em casa a mesma cadeira que seu colega tem no escritório. Todo mundo quer móveis diferentes então a verdadeira função de uma cadeira, por exemplo, o conforto, vai pro inferno. […]

Nós devemos aprimorar cada pedaço de mobiliário e não inventar mil variações; devemos refiná-los em todos os sentidos, e não seguir a moda. Só então poderíamos dizer que trabalhamos para nós mesmos, para o Homem (e para a Mulher) e não só para a criatividade (ou bizarrice). Vamos falar a verdade, crianças. Você não compraria uma cadeira na qual tem certeza que pode relaxar, mesmo que outra pessoa também a tivesse?

Eu entendo que o design de interiores não quer dizer inventar uma nova forma para um certo móvel e sim colocar um móvel comum, uma cadeira vulgar, no lugar certo.”

abril 4, 2012

As heranças do design italiano

por thaís serafini

Acho incríveis os casos em que um talento extraordinário – e similar – passa de geração para geração. No caso do design italiano, que é assunto quase diário por aqui, esse fato não é novidade pois muitas das principais empresas nasceram e continuam sendo familiares. E olha que a influência familiar é algo bem forte na Itália (nós descendentes conseguimos sentir bastante disso até)!

Pois este caso me encantou em especial, em parte pela novidade do assunto pois desconhecia sua existência e outra parte seria pelo caráter tão simplista, genuíno e belo. Talvez estas palavras não digam muito sobre Lisa e Gio mas, a seguir, deverão fazer mais sentido para aqueles que se deixarem apaixonar também.

Gio Ponti é um nome importantíssimo para o design, arquitetura e arte italianas, não somente por suas obras importantes e feitos pessoais mas por traçar caminhos tão significativos até hoje. Em 1928, Ponti fundou a revista Domus, a mais importante revista de design e que vira-e-mexe é fonte e assunto por aqui. A novidade, para mim, é que sua filha Lisa Ponti é também artista talentosa e dona de personalidade e histórias fantásticas.

Nascida em 1922, Lisa desenha e escreve desde então. Em uma recente entrevista para a Domusweb (óbvio) ela deu umas pinceladas do que foi crescer sendo filha de Gio Ponti (colaborando com ele nas revistas por mais de 30 anos), da sua arte e de seus encontros. A artista diz se surpreender diariamente com o fato de ter 90 anos de idade e contou que trabalhar com os Eames nos Estados Unidos foi uma revelação de uma “carreira-vida sem fim nem começo”, pois o casal trabalhava em um processo contínuo interrompido somente por picnics na praia.

As lindas fotos que acompanham este post são de autoria do próprio Ray Eames quando em Veneza na companhia de Lisa e  desde que o editor da Domus comentou a semelhança destas imagens com as atuais feitas pelo Instagram, me impressiono ainda mais!

A mensagem de Lisa Ponti para os leitores tem tudo a ver com uma vida que ela diz não ter sido somente sua, baseada em encontros sem esforços: “Faça as coisas acontecerem e deixe-as acontecer.”

agosto 26, 2011

Valentine, A máquina de escrever

por thaís serafini

Apenas dois anos após seu lançamento, a máquina de escrever da Olivetti já fazia parte da coleção permanente do MoMA. Projetada pelo nosso admirado e incrível Ettore Sottsass, a Valentine era vermelha e feita em ABS e pretendia transformar a máquina de escrever em um objeto de uso tão comum quanto uma caneta. Muito tempo passou e o efeito foi justamente contrário: a Valentine sempre ocupou posição de muito destaque entre os icônes de design italiano. Mais uma pérola direto do túnel do tempo da Domus, republicando este artigo de 1969.

 

valentine

valentine by ettore sottsass

valentine

julho 8, 2011

Arquitetos da informação muito antes dos Wikileaks

por thaís serafini

 

Os regulamentos são feitos para te enganar. Os governos são feitos para te enganar. […] A nossa visão é que você deve cuidar de você mesmo. Não confie na Internet. Não confie em profissionais. Não confie em nós e em ninguém mais.

Existem dois arquitetos americanos, que estão longe do anonimato e da arquitetura por escolha própria, e que fundaram há mais de dez anos o Cryptome.

Nos primórdios da Internet, muito antes de Julian Assange e Wikileaks, Deborah e John acreditaram que aquele seria um meio com potencial de alterar os sistemas de poder entre as pessoas, os governos e as corporações e começaram a publicar documentos oficiais. Durante esses anos “puxando o tigre pelo rabo” ao defender a liberdade da informação, já receberam visitas policiais e passaram por julgamentos, e hoje disponibilizam on-line (ou em DVDs enviados pelo correio) mais de 65 mil documentos.

 

cryptome 2

Desde o início sentiam-se isolados entre hackers e criptógrafos, o que não mudou pois dizem não conhecer  nenhum arquiteto ou profissional relacionado que esteja envolvido em atividades como a do Cryptome. Sequer contam com leitores arquitetos no site.

A opinião do casal é que as exibições, revistas e outros meios deste círculo abdicaram o comprometimento como instrumentos capazes de mudanças. “Mesmo que os profissionais da área estivessem mais envolvidos em projetos como este você nunca os descobriria pela mídia do design ou arquitetura – eles seriam bizarros demais para essa ligação. […] Seguido nós lidamos com jornalistas que fogem de nos publicar – eles dizem que não puderam fazê-lo, não podiam publicar tal coisa, não tiveram espaço suficiente no nosso formato, as coisas mudaram desde a entrevista, e assim por diante.”

Acredito que o inteligente editor da Domus, Joseph Grimma, pretendia com esta entrevista levar aos seus leitores mais uma visão particular diretamente relacionada ao discutidíssimo (bem como recente e controverso) assunto do open-source no design e na arquitetura; ao qual John responde firme e indiretamente: “Somos grandes defensores do plágio e do ‘roubo’. E, como consequência, somos expulsos dos lugares toda hora. Eles nos dizem ‘você foi longe demais‘”.

 

deborah and john

 

julho 5, 2011

As adolescentes dos anos 60

por thaís serafini

De uma maneira intensamente poética, confusa e visual, Ettores Sottsass (lembra dele?) publicou esse texto 1965. Nesta semana, esta pérola dos arquivos foi publicado novamente pela Domus, desta vez online, e não surpreende que seja ainda atual e faça sentido.

Sottsass observa as adolescentes, a sua vitalidade e ousadia, comparando-as às mudanças que o mundo estava vivendo naqueles anos, desde 1950. Meninas que se vestiam como astronautas estranhos, não mais com graduações de cores que combinavam entre si e uma bolsinha combinando com tudo. Não, grandes acontecimentos estavam acontecendo na teoria das imagens. O susto maior do designer foi constatar que estas adolescentes, que misturavam agressivamente listras, bolinhas, botas de astronautas e tecidos que pareciam pintura automotiva, tinham acabado por fazer com suas roupas aquilo que ele mesmo gostaria de ter feito com seu mobiliário.

E os leitores se perguntam: mas então senhor designer, aonde vamos chegar com essa longa divagação sobre a energia das adolescentes que pegam o ônibus para ir à escola?

O que isso tem a ver com os meus móveis? Os meus móveis são uma coisa trivial e não importam nada. Mas a ideia seria inventar novas possibilidades totais, novas formas, novos símbolos: subir em cima daquelas coisas que estão morrendo para ver se é possível projetar outra energia, outra vitalidade, outras dinâmicas nas vidas das pessoas.

 

ettore s

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